O que se pode esperar dos dados Amazonia-1?

Artigo publicado em 11/03/2021 no LinkedIn

No dia 28 de fevereiro acompanhamos atentamente o lançamento do primeiro satélite dedicado ao sensoriamento remoto 100% desenvolvido no Brasil, o Amazonia-1. O lançamento ocorreu no Centro Espacial de Satish Dhawan da Organização Indiana de Pesquisa Espacial (ISRO). Foram vários anos de dedicação e de desenvolvimento de tecnologias no país para o colocarmos em órbita, mesmo com recursos escassos para a ciência e tecnologia.

Durante várias horas acompanhamos ansiosos pela decolagem e pelos 17 minutos seguintes que seriam cruciais à missão, pois o satélite se desprenderia do veículo lançador e de abriria seus painéis solares para ser abastecido de energia. Cerca de 10 mil pessoas ficaram acordadas até as 3h, quando finalmente foi dada a notícia de que tudo estava bem e as imagens do nosso satélite em órbita e com seus sistemas funcionando foram exibidas. Agora poderíamos ir dormir e esperar o comissionamento do satélite e a liberação das imagens para fazermos os testes iniciais.

No dia 2 de março, porém, o mensageiro sideral em seu blog na Folha de São Paulo nos traz a notícia de algo não estava bem com o Amazonia-1, pois rastreadores nos EUA e na Itália teriam percebido que a trajetória descrita pelo satélite indicava que ele se encontrava em rotação e sem controle.

E, como em outros problemas com dados e sistemas, o silêncio imperava e nem MCTI, nem INPE e nem AEB se pronunciavam sobre o possível problema de trajetória de nosso primeiro satélite feito todo em casa. Eu mesmo fiz algo que não costumo fazer que foi me manifestar no twitter sobre o silêncio sepulcral do INPE.

Logo após, o ex-Diretor do INPE, Gilberto Câmara, se manifesta dizendo que o pessoal do INPE disse que estava tudo certo e que o Amazonia-1 estava passando pelas etapas previstas. E eu me manifestei novamente, salientando que deveria ocorrer uma manifestação oficial do INPE.

E para minha surpresa, o Diretor INPE, Clezio Nardin, no mesmo dia 3 de março, apresenta o Centro de Controle da Missão e mostra as imagens observadas pelo Amazonia-1 em tempo real. Muitos me perguntaram sobre a qualidade das imagens apresentadas e eu salientei que elas estavam mostrando não os dados do sensor de campo largo, WFI, mas das câmeras de acompanhamento da missão que permitem verificar o que o sensor está capturando, porém, sem a qualidade dos dados obtidos para fins de sensoriamento remoto.

Exemplo de imagem
No dia 9 de março, o MCTI, INPE e AEB fazem uma live no YouTube para tirar todas as dúvidas sobre o satélite, explicar como anda o funcionamento do equipamento desde o lançamento até o momento e apresentar as primeiras imagens do Amazonia-1 da câmera WFI (Wide Field Imager – Imageador de Campo Largo).

Esse sistema sensor é idêntico ao sensor que está no CBERS-4A desenvolvido por duas empresas brasileiras, a Equatorial Sistemas, de São José dos Campos, e Opto Eletrônica, de São Carlos. Apresenta 4 bandas espectrais, sendo 3 no visível (banda 1 de 0,45 - 0,52 µm – região do azul; banda 2 de 0,52 - 0,59 µm – região do verde; e, banda 3 de 0,63 – 0,69 µm – região do vermelho) e uma no NIR, ou infravermelho próximo (banda 3 de 0,77 - 0,89 µm). A largura da cena é de aproximadamente 850km, com pixel em torno de 60m de resolução espacial.

Foram apresentadas algumas cenas, sendo a primeira, uma composição de cor real, de parte do estado de São Paulo, destacando a área metropolitana, o vale o Paraíba do Sul, bem como o litoral paulista com diversas áreas importantes, como São Vicente, Santos, Guarujá, entre outros.

A cena seguinte foi do litoral do Rio de Janeiro, mas em falsa cor, numa composição com o NIR no canal verde. Destaque para a restinga da Marambaia na parte inferior da cena. Nesta composição, a região metropolitana aparece em tons róseos.

A cena seguinte destaca o lago de Sobradinho na divisa de Pernambuco e Bahia, destacando em composição de cor real, a carga de sólidos em suspensão na água do lago. Também em composição de cor real.

A última cena, também em cor real, representa um trecho mais de médio curso do Rio São Francisco, destacando na margem esquerda, campos agricultáveis. Também se destaca o padrão barrento da água do rio.

E por que tanta curiosidade e tanto interesse nesses dados?

Como você pode ver, os dados não são de alta resolução como noticiado por vários veículos. Sua utilização é para escalas mais regionais e não para detalhe. Mas isso não tira a importância desse tipo de dado, principalmente num país de dimensões continentais.

Associado aos dois CBERS que estão em operação, o 4 e o 4A, com o Amazonia-1 você amplia a disponibilidade de imagens de campo largo e o monitoramento fica mais eficiente. Mas tudo isso poderia ser feito pelos sistemas sensores gratuitos disponíveis. Porém, esse sistema representa um marco, mesmo que tardio, em direção à autonomia nacional na construção de toda a estrutura de SSR ou Sistema de Sensoriamento Remoto. Não é pelos dados, mas pelo que o sistema todo representa. Nosso satélite foi lançado da Índia e os CBERS, sempre da China, e porque não em Alcântara, se temos uma base bem equatorial e economizaríamos muito aproveitando a velocidade de rotação? Porque ainda não temos autonomia para lançar esse tipo de carga. Os indianos começaram na década de 70 e muitos dos brasileiros entrevistados relatam que no museu do centro de lançamento de Satish Dhawan existe uma foto de um foguete sendo transportado de carroça. Foram quase 400 lançamentos antes da missão PSLV-C51, que colocou o Amazonia-1 em órbita e com grande maestria.

Que venham os dados para testarmos e verificarmos se os padrões radiométricos são bons. Pelo que foi apresentado no dia 9/3, parece que os dados são muito bons e isso é muito animador. E que possamos atingir autonomia necessária mesmo que tardia para avançarmos no fascinante mundo do sensoriamento remoto.
 
Um grande abraço!